sábado, 19 de maio de 2012

Pernambuco reunirá mulheres idosas em Fórum Nacional

Evento acontece nos dias 13 e 14 de junho, no Cecon. Inscrições podem ser feitas de 21 a 25 de maio, através do site www.secmulher.pe.gov.br

Consolidar o espaço de debate e exposição das particularidades etárias para a adequação das políticas públicas para as mulheres idosas, viabilizando a sua atuação na sociedade contemporânea. Esse é o objetivo do II Fórum Nacional da Mulher Idosa que acontecerá dias 13 e
14 de junho, no Centro de Convenções de Pernambuco. O tema central será A Idosa do Século XXI.

As inscrições podem ser feitas no período de 21 a 25 deste mês, acessando o endereço www.secmulher.pe.gov.br. O evento será aberto com a presença do Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, da Ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM/PR), Eleonora Menecucci, da Secretária da Mulher de Pernambuco, Cristina Buarque e outras autoridades locais.

Na programação estão previstas palestras, oficinas, debates e apresentações culturais. No primeiro dia do evento (13/06), haverá palestra sobre o tema A Idosa do Século XXI,proferida pela presidenta da Academia Pernambucana de Letras e Artes, Leny Amorim. Entre os temas programados para o Fórum estão a aplicabilidade da Lei Maria da Penha para Mulheres Idosas e o desafio e perspectivas das políticas públicas para as mulheres idosas.

O Fórum bianual acontecerá em uma das cinco regiões brasileiras, a cada edição, com o objetivo de contemplar as diversidades regionais e enfrentar as desigualdades geracionais que atingem as mulheres idosas, conforme preconiza o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (II PNPM).

O evento é realizado pela Secretaria da Mulher do Governo de Pernambuco (SecMulher), Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSDH), Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), com apoio da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM/PR), do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Pernambuco (CEDIM-PE), do Conselho Estadual dos Direitos do Idoso (CEDI-PE), da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAZ Nacional e ABRAZ Regional Pernambuco), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/Pro-reitoria de Extensão/Proidoso), Instituto de Pesquisas da Terceira Idade (IPETI), Associação Brasileira dos Clubes da Melhor Idade (ABCMI) e Pastoral da Pessoa Idosa.

Mais informações:

Ylka Oliveira – Assessora de Comunicação e Imprensa da SecMulher

(81) 9488-3620/ 3183-2955



Fábia Lopes – Gerente de Fortalecimento Sociopolítico da SecMulher

(81) 9488-3619/3183-2977

Amapá sedia II Encontro Internacional das Parteiras Tradicionais

Com a finalidade de retomar o projeto das "Parteiras Tradicionais do Amapá", o governo do Estado promove no período de 21 a 26 de maio, em Macapá, o II Encontro Internacional das Parteiras Tradicionais, com o tema "Memórias, identidade e inclusão social".
O evento irá reunir parteiras do Brasil e toda a América Latina, pesquisadores, representantes de governos e de organizações da sociedade civil. Uma vasta programação está sendo organizada pelas Secretarias de Estado da Inclusão e Mobilização Social (SIMS) e da Saúde (Sesa), pelo Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) e pela Escola de Administração Pública (EAP).


Programação
Durante os dias do II Encontro, a Sesa e o Ministério da Saúde (MS) irão capacitar 90 parteiras tradicionais do Amapá. Por meio do programa Rede Cegonha (projeto de humanização e melhor assistência ao parto), elas receberão o kit parteira, que contém vários itens, entre eles, capa de chuva, toalha, estetoscópio, tesoura, material para curativo.
Com a participação de parteiras internacionais, ainda serão ministradas várias oficinas e palestras. Na ocasião, serão lançados os livros: Parto e Nascimento Domiciliar Assistido por parteiras Tradicionais (Ministério da Saúde) e Parteiras, buchudas e aperreios, de Soraya Fleischer (Universidade de Brasília) e ainda a exposição de fotografias e exibição de documentários.


Retomada
Na década de 90, aproximadamente 1.240 parteiras foram capacitadas na primeira fase do programa, entre os anos de 1995 a 2002. A deputada federal Janete Capiberibe (PSB/AP), responsável pelo projeto, explica que a iniciativa foi abandonada no período de 2003 a 2010. Porém, agora está sendo retomada com o objetivo de valorizar os saberes tradicionais das parteiras e ainda inclui-las no serviço público de saúde.
"O governador Camilo Capiberibe tem compromisso com a valorização das parteiras tradicionais. Elas recebem R$ 311,00 mensais e voltarão a participar de encontros, cursos e seminários", afirma a deputada.
A secretária da SIMS, Eloiana Cambraia, explica que o órgão é responsável pelo projeto de resgate e valorização das parteiras tradicionais do Estado, especialmente no que se refere ao fortalecimento do processo organizativo e participação cidadã, como forma de garantir a inclusão e o acesso às políticas públicas.


Convidados
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a secretária Estadual de Políticas para Mulheres do Acre, Concita Maia e o governador do Amapá, Camilo Capiberibe, já confirmaram presença no evento, além de parteiras do Pará, Maranhão, Pernambuco e Distrito Federal. É esperada também a vinda da secretária Executiva Colegiada da ONG Curumin, Paula Viana, da embaixadora da Colômbia no Brasil, Maria Elvira Pombo e da conselheira Cultural, Cecília Rincón.


Projeto
O projeto apresentado pela deputada federal Janete Capiberibe torna lei o reconhecimento do saber das parteiras tradicionais, incluindo-as no sistema público de saúde e permitindo a remuneração pelo trabalho que prestam. O projeto da deputada socialista provocou o debate sobre a situação das cerca de 60 mil parteiras brasileiras dentro do Congresso Nacional, tendo motivado diversas audiências.
"Os debates que promovemos resultaram em avanços e mais apoiadores da causa na Câmara, no Senado, no Governo Federal, nas universidades e na sociedade", defende a autora do projeto.


Parteira
É aquela que dar suporte físico e emocional a outras mulheres antes, durante e após o parto. São reconhecidas e respeitadas pela sua comunidade, usam práticas populares, como o uso de plantas medicinais, independente da religião que pertencem sempre oram, tornando a fé um parâmetro para que o trabalho do parto aconteça sem problemas.
O Dia Internacional da Parteira, em 5 de maio, foi instituído pela Organização Mundial da Saúde em 1991, para salientar a importância do trabalho das parteiras em todo o mundo.


Confira a programação


Dias 21 a 24 de maio
Local: Escola de Administração Pública do Amapá
8h às 19h - Capacitação das Parteiras Tradicionais do Amapá: Cuidando de quem recebe a vida - Secretaria de Estado da Saúde/AP e Ministério da Saúde.

Dia 25 de maio
Local: Hotel Ceta Ecotel
7h30 - Credenciamento
8h - Mesa de Abertura
9h - Palestra Magna: Valorizando o Saber e a Prática das Parteiras Tradicionais - Governador do Estado do Amapá, Camilo Capiberibe
9h30 - Apresentação do vídeo "Somos Parteiras", do diretor Gavin Andrews
10h - Declamação de Poesias - Grupo Abeporá das Palavras
10h30 - Lançamento da Campanha "Valorização das Parteiras Tradicionais: uma campanha de resgate da história de comunidades tradicionais e de acesso à saúde da mulher e da criança" - Grupo Curumim e Fundo Brasil de Direitos Humanos
11h - Apresentação de Marabaixo
12h às 14h - Intervalo
14h - Revitalização: Ota Batisteli
14h30 - Painel: Patrimônio Cultural, Memória e Identidade
Painelista: Júlia Morim de Melo - Iphan/PA
Painelista: Mara Régia de Perna - Rádio Nacional
Mediador: Augusto Oliveira - Iepa/Governo do Estado do Amapá
15h30 - Relato de Experiências: Nas Palavras das Parteiras 
Parteira: Maria Luiza Dias - Amapá
Parteira: Suzane Saout - Guiana Francesa
Parteira: Maria Zenaide de Souza Carvalho - Acre
Parteira: Fernanda da Silva - Pernambuco
16h30 - Grupos de Trabalhos: Construindo a Carta do Amapá - EAP/GEA
18h - Marcha das Parteiras e Cerimônia do Fogo

Dia 26 de maio
Local: Hotel Ceta Ecotel
8h - Revitalização: Ota Batisteli
8h30 - Apresentação do vídeo "Cuidando de Quem Recebe a Vida", registro da Capacitação das Parteiras Tradicionais do Amapá - Bia Fioretti
9h - Demonstração do trabalho com ervas, infusão e unguentos - Parteiras do Amapá e Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do estado do Amapá - Iepa
10h - Solenidade de entrega de Kits Parteiras pelo Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e entrega do Plano de Ação da Rede Cegonha do Estado do Amapá, pelo Governador Camilo Capiberibe.
11h - Painel: Rede Cegonha - Parteiras Tradicionais e Resgate de Saberes: a inclusão do parto e nascimento domiciliar no SUS
Painelista: Maria Esther Villela - Coordenadora Nacional da Área Técnica da Saúde da Mulher - Ministério da Saúde
Painelista: Paula Viana - Grupo Curumim
Mediadora: Maryanne Seabra - Grupo Condutor da Rede Cegonha - Secretaria de Estado da Saúde/AP
12h às 14h - Intervalo
14h - Revitalização: Ota Batisteli
14h30 - Painel: Participação Social, Protagonismo e Cidadania
Painelista: Concita Maia - Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres - Acre
Painelista: Janete Capiberibe - Deputada Federal pelo Amapá
Mediadora: Eloiana Cambraia - Secretária de Estado da Inclusão e Mobilização Social do Amapá
16h30 - Relato de Experiências: Nas Palavras das Parteiras
Parteira: Maria Tereza Bordalo - Pará
Parteira: Marina Silva - Maranhão
Parteira: Paloma Terra - Distrito Federal
17h30 - Grupo de Trabalho: Leitura e Aprovação da Carta do Amapá EAP/GEA

Programação Cultural


Local: Hotel Ceta Ecotel
Dias 25 e 26 de maio
8h às 18h - Exposição Fotográfica "Diálogo entre Parteiras", de Bia Fioretti
Dia 26 de maio
18h30 - Lançamento de Livros
Parto e Nascimento Domiciliar Assistido por Parteiras Tradicionais, do Ministério da Saúde
Parteiras, Buchudas e Aperreios, de Soraya Fleischer - Universidade de Brasília
19h30 - Atrações Culturais: Roda de Samba, Seresta e Músicas Regionais


 Fabíola Gomes/Secom

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana

 






17/04/2012 - 15h35
·         Cultura
Alex Rodrigues
Repórter da Agência Brasil


Brasília - "Temos medo do Brasil." Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF). Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país.

"Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo", criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.

"De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal", sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. "Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular", detacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

"Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres", disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento.

"Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras", disse Paulina.

"Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas", disse Paulina.

Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia, de autoria da escritora moçambicana.

CARTA DA VI CONFERÊNCIA DO FAOR À SOCIEDADE E GOVERNOS

CARTA DA VI CONFERÊNCIA DO FAOR À SOCIEDADE E GOVERNOS.
O Fórum da Amazônia Oriental é uma Rede que engloba uma diversidade de atores sociais representados através de organizações de variados tipos e tamanhos, atuando em diferentes territórios a partir de diversas temáticas, articulando-se num espaço único para desenvolver ações conjuntas em vista do combate a todas as formas de desigualdades, discriminação e violência e em favor de políticas públicas inclusivas e sustentáveis sob todos os aspectos (ambiental, social, econômico e cultural), além de enfrentar radicalmente o modelo hegemônico desenvolvimentista no Brasil – e na Amazônia, em especial.
            Estamos às vésperas da realização da Conferência da ONU para o desenvolvimento e o meio ambiente - a Rio+20, onde serão definidos compromissos dos países para enfrentamento das mudanças climáticas no planeta, após 20 anos da realização da Rio 92, quando foi firmado um conjunto de medidas para combater as alterações climáticas e, ao mesmo tempo, garantir o desenvolvimento sustentável e do qual pouco ou nada foi feito. O FAOR articulado com outros fóruns e redes está se organizando na realização da Cúpula dos Povos, paralelo a Rio+20, para visibilizar as experiências exitosas  com respeito a sociobiodiversidade que possam servir de exemplos à implementação de políticas públicas e denunciar os impactos da globalização capitalista com suas falsas  soluções, que favorecem a expansão do capital na exploração acelerada dos bens comuns.
            Este novo movimento do capital se manifesta em dois planos. Primeiro na busca de apropriação e mercantilização de novos espaços territoriais (solos, subsolos, fundos marinhos, éter) e de novos domínios (biodiversidade, ecossistemas, corpo humano, culturas, conhecimentos). Esta disputa pelos territórios na região amazônica tem a violência como parte constitutiva da sua própria reprodução.
No caso da (Pan)Amazônia a violência a que são submetidas populações indígenas, ribeirinhas, extrativistas, agricultores(as) familiares, remanescentes de quilombos não é algo contingencial. Ou seja, não é exceção a regra, mas a regra em si mesma. É preciso expropriá-las, expulsá-las ou confiná-las em espaços bem delimitados para que as terras da (Pan)Amazônia possam ser transacionadas no mercado, vendidas e compradas. E se essas populações não podem ser retiradas de seus territórios, para atingir esse propósito mudam-se as leis para que mineradoras, madeireiras, empreiteiras e outras possam acessar os recursos naturais existentes nesses locais.
A maneira ainda mais sofisticada nessa etapa de globalização capitalista para garantir ao grande capital o acesso, uso e controle de vastos territórios da (Pan)Amazônia é o mercado de carbono. Tal mercado, se constituído, permitirá às corporações econômicas e aos Estados nacionais mais poderosos (Estados Unidos, China, França, Alemanha, Japão e outros) negociarem o direito de poluir a atmosfera, pagando aos demais países por esse direito através da compra de títulos na bolsa de valores: é a carbonificação da economia ou a financeirização da natureza. Como tudo no capitalismo, a ideia é proporcionar imensos lucros a essas corporações e seus Estados com a crise ambiental. É isso mesmo: a crise ambiental se transformou numa mercadoria valiosa, mesmo que isto venha agravar os riscos à nossa própria existência enquanto espécie.
Os defensores dessa estratégia também denominada economia verde tentam a todo custo convencer a sociedade de que o mercado é a melhor alternativa à crise ambiental. Tentam convencê-la de que não há necessidade de qualquer mudança estrutural do próprio sistema, que basta a adoção de instrumentos “mais eficientes” de mercado para que o problema seja solucionado. Aí surgem siglas e mais siglas que muitos(as) de nós sequer conhece o significado: REDD, REDD+, REDD PLUS e tantos outros. Por trás desse emaranhado de letras escondem-se interesses poderosos para garantir a livre expansão do capital e o controle de territórios e seus recursos.
Na (Pan)Amazônia muitas empresas (nacionais e estrangeiras) buscam freneticamente estabelecer acordos comerciais com povos indígenas através de contratos. Quando lemos tais contratos vemos com clareza que o objetivo é garantir aos conglomerados econômicos o controle dessas áreas, da sua biodiversidade, enquanto que às comunidades se pretende repassar recursos que nem de perto se aproximam dos lucros que serão obtidos pelas empresas, bem como as responsabilidades legais e financeiras de manter a área preservada.
Às medidas abordadas acima para garantir o acesso, uso e controle de territórios soma-se a execução de grandes projetos de infraestrutura na (Pan)Amazônia. Hidrelétricas, portos, aeroportos, hidrovias, rodovias, gasodutos, sistemas de comunicação, redes de energia e postos de fronteira estão sendo implantados para garantir justamente a expansão acelerada do capital na nossa região, cujos impactos socioterritoriais têm sido nefastos às populações tradicionais e outros segmentos, em particular às mulheres e jovens.
Denúncias de operários(as) submetidos(as) a condições análogas à escravidão, violência sexual, prostituição de adolescentes, disseminação do consumo de drogas, particularmente do crack, assassinatos e outras formas de violência são comumente registrados nas áreas onde estão sendo executados os empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). É o que ocorre, por exemplo, nas regiões impactadas pelas hidrelétricas Santo Antonio e Jirau no rio Madeira, em Rondônia, e em Belo Monte, no Pará.
Os/As agricultores(as) familiares convivem com ambíguas políticas governamentais que, de um lado, promovem o fortalecimento da produção de base familiar e, de outro, fomentam o avanço do monocultivo do dendê e de outras oleaginosas, através do Programa Federal do Biocombustível, promovendo, dessa forma, exclusão social, violência, marginalização, conflitos fundiários e agrários, o assalariamento da agricultura familiar, bem como o surgimento de pequenos empresários agrícolas, competindo espaços com pequenos agricultores familiares.
Em relação às cidades da Amazônia brasileira, a grande maioria encontra-se alijada de muitas políticas governamentais em execução no país. Isto porque a política urbana contempla usualmente as grandes cidades ou aquelas integrantes de regiões metropolitanas. As pequenas e médias cidades são excluídas ou secundarizadas, privando suas populações do acesso a bens, serviços e equipamentos públicos importantes para garantir boa qualidade de vida dos(as) seus/suas habitantes.
A violência é a principal causa de mortes de jovens nas periferias urbanas. O extermínio promovido por agentes do Estado que atuam na ilegalidade, traficantes e outros cresce vertiginosamente. Contudo, setores conservadores defendem a redução da maioridade como resolução do problema da violência. Mais cárceres, menos escolas. Mais recursos para presídios e menos à cultura, à educação e ao lazer. Mais celas e menos emprego. É o que imploram tais segmentos.
As mulheres sofrem todo tipo de constrangimento pela ausência e/ou deficiência das políticas governamentais, que venham garantir sua autonomia econômica e social. Continuam recebendo menos que os homens pelos mesmos tipos de trabalho e ainda são vistas como objeto masculino. É bem verdade que muitas conquistas foram alcançadas pelas mulheres no campo dos direitos. Contudo, é verdade também que os ganhos obtidos ainda não respondem satisfatoriamente aos seus interesses e às suas demandas.
Do ponto de vista da representação, os movimentos feministas e de mulheres, reivindicam um sistema político-eleitoral democrático e laico, com fortalecimento dos partidos, financiamento democrático das campanhas, combate ao personalismo, igualdade de condições nas disputas eleitorais e combate à corrupção nas campanhas e mandatos, com paridade nos parlamentos através da instituição de listas partidárias transparentes, pré-ordenadas nas eleições proporcionais, com alternância de sexo. Nos processos eleitorais houve um aumento substancial nas candidaturas femininas para os cargos proporcionais que, no entanto, não foi acompanhado por uma elevação no número de cadeiras conquistadas por mulheres na Câmara dos Deputados e nas Assembléias Estaduais.
O preconceito contra homossexuais, negros e negras ainda é muito forte na nossa sociedade. Estes se encontram entre as principais vítimas das ações de extermínio, dos abusos de autoridade, da ausência e/ou deficiência das políticas governamentais. O racismo e o preconceito caminham lado a lado e, infelizmente, ainda ditam comportamentos e regras sociais, mesmo que legalmente proibidos.
A violação de direitos é parte da engrenagem que movimenta a grande máquina que é o sistema capitalista. No Brasil, há clara tentativa de setores conservadores de promover a desconstrução de direitos para garantir a expansão dos mercados. É a democracia definhando. A constituição Federal de 1988 vem sendo sistematicamente atacada por eles. Por outro lado, questionam demandas e/ou conquistas alcançadas: o direito das mulheres decidirem sobre seu próprio corpo, a cotas raciais para as universidades públicas, o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo, entre outros.
As populações da Amazônia possuem diversos modos de vida, uma economia centrada nas pessoas e não no capital, formas coletivas de apropriação, uso e gestão de seus territórios, tecnologias de produção agroecológicas e um saber que compartilha a sobrevivência dos ecossistemas com a segurança alimentar e cultural dos povos que vivem neles e deles.
O FAOR, portanto, defende que estas lógicas e práticas constituam-se na grande referência para a efetivação da justiça socioambiental na (Pan) Amazônia.
Diante desse cenário, a VI Conferência do FAOR apresenta a seguinte plataforma:
1.     Fortalecimento da democracia e garantia de direitos;
2.     Realização da disputa por nossos territórios,  enfrentando os conflitos socioterritoriais na perspectiva da justiça socioambiental e da preservação da biodiversidade e dos ecossistemas;
3.     Superação das desigualdades sociais e econômicas e das injustiças de gênero, de etnia, raça e de classe;
4.     Participação social: transformar as alternativas da sociedade civil em políticas públicas para um novo modelo de desenvolvimento.

VI Conferência do FAOR
Plenária Final - Belém-PA
29 de março de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O IMENA completou 12 anos

Os 12 anos do IMENA foi comemorado na sede da instituição, na segunda feira, 07 de maio, com uma Roda de Conversa, as colaboradoras e militantes, falaram da trajetória da Instituição, umas com bastante tempo de militância outras com menos. Mas, com o mesmo  sentimento de pertencimento, afinal somos todas mulheres negras.
Foi um  momento muito especial, um encontro de gerações e emoções. Pela fala da juventude elas estão dispostas a segurar o bastão.



domingo, 6 de maio de 2012

Comunidade Quilombola de Aporema



As  belezas da  Comunidade Quilombola  de São Tomé do  Aporema,  localizada no municipio de Tartarugalzinho no estado do Amapá, são os búfalos tomando banho no rio Aporema.
Foto: Acervo IMENA

Alaerte Martins: A morte materna invisível das mulheres negras

Alaerte Martins: A morte materna invisível das mulheres negras
Publicada por Conceição Lemes em 23 de fevereiro de 2012 (14:23) na Denúncias
Alyne  e Marina,  retratos emblemáticos de uma tragédia brasileira: Morreram não por falta de acesso ao pré-natal, mas devido à falta de atendimento de qualidade,  nosso calcanhar-de-aquiles
por Conceição Lemes
Começou dia 13 de fevereiro e vai até 2 de março, em Genebra, Suíça, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (Cedaw), da Organização das Nações Unidas (ONU).
Para o Brasil, especificamente, sexta-feira passada, 17, foi chave. A ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), apresentou um relatório sobre as medidas adotadas pelo Estado brasileiro para promover a igualdade de gênero. O enfrentamento da mortalidade materna foi um dos temas abordados.
Primeiro, porque anualmente cerca de 1.800 brasileiras morrem antes, durante ou poucos dias após o parto. Em 2009, foram 1.872 óbitos maternos declarados, segundo o DATASUS. O que significa 65 mortes para cada 100 mil bebês nascidos vivos.
Segundo, porque, em 2011, o Estado brasileiro foi condenado pela Cedaw devido à morte de Alyne da Silva Pimentel, ocorrida em 2002.
Os casos de Alyne, em Berlfort Roxo, na Baixada Fluminense, e de Marina Carneiro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, são emblemáticos dessa tragédia brasileira.
Alyne, então com 28 anos de idade e 27 semanas de gestação, procurou uma casa de saúde particular, pois estava vomitando e com fortes dores abdominais. Saiu de lá com prescrição de remédios para náuseas, vitamina B12 e uma medicação tópica para infecção vaginal.
Após dois dias piorou. Voltou à casa de saúde e uma ultra-sonografia mostrou que o feto estava morto. O parto foi induzido. Mas os médicos só fizeram a cirurgia para retirar a placenta 14 horas depois. Em seguida, Alyne teve hemorragia, vomitou sangue e sua pressão arterial caiu. Decidiram transferi-la para um hospital público da região.
O único que a aceitou foi o Hospital Geral de Nova Iguaçu. Alyne esperou oito horas por ambulância. Como a casa de saúde não encaminhou junto qualquer documento que indicasse o seu estado clínico, ela ficou horas no hall da emergência, pois não havia leito disponível. Aí, entrou em coma e morreu no dia seguinte. Entre o mal-estar inicial e o óbito se passaram cinco dias.
Marina Carneiro tinha 25 anos, residia em Porto Alegre, havia morado nos Estados Unidos, cursava o último ano de Engenharia do Meio Ambiente. Fez pré-natal com o médico do seu convênio. Ele solicitou cinco ultra-sonografias, mas nenhum exame de urina durante o pré-natal, como determina o protocolo básico de atendimento às gestantes.
À 0h30 do dia 7 de março de 2005, na 34ª. semana de gestação, Marina deu à luz a Manuela. Não sobreviveu para conhecê-la.  Sete horas depois morreu. Causa: doença hipertensiva específica da gravidez (DHEG).
“Se o médico da Marina tivesse recomendado exame de urina e demais medidas indicadas no protocolo de atendimento de gestantes, descobriria que ela tinha proteína na urina, a DHEG seria diagnosticada e ela salva”, atenta a enfermeira obstétrica e doutora em Saúde Pública Alaerte Leandro Martins. “Alyne morreu por falta de cuidados médicos adequados desde o instante em que procurou a casa de saúde pela primeira vez com fortes dores abdominais. A partir dali, os equívocos foram se acumulando, chegando ao absurdo de ela ser transferida de hospital, já em estado grave, sem um relatório com dados do seu prontuário médico.”
“Alyne e Marina morreram não por falta dos R$ 50, propostos pela MP 557, mas por falta de acesso a um pré-natal de qualidade, o nosso calcanhar-de-aquiles”, avisa Alaerte. “A alta taxa de mortalidade materna no Brasil se deve principalmente à má qualidade do atendimento e à falta de organização das redes de serviços e não à falta de acesso ao pré-natal, como muitos propagandeiam.”
“A mortalidade materna é maior entre as mulheres negras, sendo que metade dos óbitos devido a aborto é por aborto espontâneo”, adverte Alaerte. “Em situação de abortamento, as mulheres são discriminadas. E se são negras são mais discriminadas do que as brancas. Serão as últimas das últimas a serem atendidas, correndo maior risco de morte.”
Já nos anos 1970 o movimento negro alertava sobre fortes indícios de que a mortalidade materna das negras no Brasil era, expressivamente, maior que do que a das brancas.  O setor saúde e os governos nunca deram crédito à hipótese. Até que uma enfermeira obstétrica negra, Alaerte Leandro Martins, resolveu estudar o assunto.
Alaerte Martins:  Dificilmente os R$ 50 vão ajudar a reduzir a mortalidade materna no Brasil
Na tese de mestrado “Mulheres negras e mortalidade materna no estado do Paraná, de 1993 a 1998”, analisou 956 óbitos maternos, na faixa etária de 10 a 49 anos, ocorridos nesse período. Concluiu que, quando comparada à das brancas, a mortalidade das negras era 6 vezes maior. A tese de doutorado, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), foi sobre gestantes negras que não foram a óbito, mas que ficaram com graves sequelas: “Near miss e mulheres negras em três municípios da Região Metropolitana do Paraná”.
Alaerte trabalha há 22 anos com saúde da mulher. Integra o Comitê de Prevenção de Mortalidade Materna do Paraná, tendo sido sua presidenta. Integra a Comissão de Prevenção da Morte Materna do Ministério da Saúde. É coordenadora executiva da Rede de Mulheres Negras do Paraná.
Eis a íntegra da entrevista que ela nos concedeu.
Viomundo – Quando se diz que x ou y é um problema grave de saúde pública, muitos imaginam milhares e milhares de mortes. Qual o significado da alta taxa de mortalidade materna?
Alaerte Martins – Para se compreender melhor a magnitude do problema, a gente tem de falar do cálculo da mortalidade materna. É um dos raros indicadores calculados por 100 mil nascidos vivos.  Significa que cada mulher que morre é única em 100 mil bebês nascidos vivos. E quando essa mulher morre, não é apenas ela que vai, a família toda “morre”. E o que é mais cruel: são mortes evitáveis.
Para a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), se a mortalidade materna de uma região é muito alta, é porque ela é subdesenvolvida. A morte materna evidencia que se não há assistência digna à mulher no pré-natal e no parto – em 85% a 90% dos casos deveriam ser normal –, não há assistência para mais nada.
É absurdo que em pleno século XXI, quando se faz transplante de todo tipo de órgão, a mulher ainda morra por estar grávida. Quanto menos desenvolvido o país ou a região, maior a mortalidade materna.
Viomundo – Quantos casos ocorrem por ano no Brasil?
Alaerte Martins – Em 2009, foram 1.872 óbitos declarados, segundo o DATASUS. O que dá 65 mortes maternas para 100 mil bebês nascidos vivos.
Viomundo – Como se distribuem pelo Brasil?
Alaerte Martins – Numa mesma região, há índices totalmente opostos. Eu trabalho numa regional de saúde que engloba 29 municípios, inclusive Curitiba. Nela, além da capital, está Araucária, o município com melhor IDH do Paraná, e Doutor Ulysses.
Araucária tem mortalidade materna comparável aos países de Primeiro Mundo, como Estados Unidos, Japão, Dinamarca, França, Alemanha, Inglaterra, onde ocorrem menos 10 mortes maternas para cada 100 mil nascimentos.
Mas também faz parte da minha regional a cidade de Doutor Ulisses, com índices comparáveis a algumas regiões da África.  Doutor Ulisses, no Vale da Ribeira, município com menor IDH do Paraná, tem 500 óbitos maternos para 100 mil bebês nascidos vivos.
Em 2009, segundo o DATASUS, a taxa de mortalidade materna foi de 67/100 mil nascidos vivos na região Norte; 73, na Nordeste; 62, na Sudeste; 55, na Sul; e 62/100 mil nascidos vivos, na região Centro-Oeste.
Detalhe: as regiões Norte e Nordeste são as que apresentam maior percentual de população negra. E as mulheres negras morrem mais por causa da gravidez do que as brancas.
Viomundo – Qual o número de óbitos maternos segundo o quesito cor?
Alaerte Martins – A relação mortalidade materna/nascidos é maior entre as mulheres indígenas, seguidas das mulheres negras. Porém, morrem mais mulheres negras.
Explico. Em 2009, segundo o DATASUS, houve 1.872 óbitos declarados, sendo 25 de mulheres indígenas. Mas, como a população indígena é pequena, a relação morte materna/nascidos vivos, é a mais alta: 157óbitos para cada 100 mil nascidos vivos.
Já entre as mulheres negras (soma de pardas e pretas, segundo o IBGE) a relação é menor: 75 para cada 100 mil. Porém, em números absolutos é, em disparada, maior:  1.076 óbitos.  Portanto, 57% do total de um total de 1.872 óbitos em 2009.
Em 2009, segundo o DATASUS, tivemos 2 óbitos em amarelas, 638, em brancas e 131 em que a cor da pele não foi registrada, apesar de ser obrigatório desde 1996.
Viomundo – A mortalidade materna decorre de falta absoluta de estrutura?
Alaerte Martins – Não necessariamente.
Viomundo – Quais as causas então?
Alaerte Martins – Há causas diretas e indiretas. Nos países de Primeiro Mundo, a grande maioria dos óbitos maternos é por causa indireta, ou seja, doença previamente existente. Por exemplo, a gestante já tem hipertensão arterial ou diabetes antes da gravidez. Algumas vezes, apesar de acompanhamento diferenciado, essas doenças podem se exacerbar na gestação e ela morrer. A mulher morre não por causa da gravidez propriamente dita, mas devido a uma doença pré-existente.
Viomundo – E as causas diretas?
Alaerte Martins – É o grande absurdo: a mulher morrer exclusivamente porque está grávida. São quatro as principais: doença hipertensiva específica da gravidez (DHEG), hemorragia, infecção puerperal e aborto.
Viomundo – No Brasil, qual a mais freqüente?
Alaerte Martins – Na maioria das vezes, a DHEG é a primeira causa. Há anos em que a hemorragia a supera. Quando isso acontece, é a segunda.
A DHEG é o distúrbio mais comum, acontece em geral na primeira gestação. Gestantes perfeitamente saudáveis podem tê-la. O organismo passa a tratar a placenta como inimiga. Por volta da 20ª semana, provoca aumento da pressão arterial, edema (inchaço por retenção de líquidos) e proteinúria (aparecimento de proteínas na urina).
A terceira causa é a infecção puerperal. Está mais do que comprovado que ela é decorrente de imprudência e negligência dos profissionais de saúde. São médicos que se acham deuses e não lavam as mãos antes dos procedimentos. E enfermeiras, que é a minha categoria profissional, que não sabem esterilizar direito os materiais. Resultado: a gestante acaba morrendo de infecção. Ela pode contrair infecção numa cesariana descuidada e até num parto normal se for deixado no útero resto placentário.
Viomundo – Como prevenir a doença hipertensiva específica da gravidez?
Alaerte Martins – Fazendo pré-natal bem feito. Numa gravidez normal, dá, em torno, de 12 consultas. Mas existe um protocolo básico que tem de ser seguido, seja a paciente SUS, de convênio ou particular. Isso implica fazer, no mínimo, seis consultas, se a paciente não for de risco. É o mínimo mesmo! Em cada uma, é preciso verificar a pressão arterial e o peso – 1kg a 1,5kg é o máximo que se deve ganhar por mês. E fazer duas baterias de exames de urina. Com isso, previne-se a maior causa de mortalidade materna, que é a DHEG.
Viomundo – Mais leitos em UTI previnem a DHEG?
Alaerte Martins – Não adianta só fazer UTI. O leito da UTI é para a mulher que já está morrendo.  Se a DHEG não for prevenida no pré-natal, através do acompanhamento adequado, a doença avançará tanto que a gestante entrará em coma. Aí, claro, vai precisar de UTI.
Muitas vezes a mulher com DHEG não morre por causa da DHEG propriamente dita, mas devido à imprudência do médico. Na ansiedade de fazer logo o parto, ele realiza uma cesariana no sufoco. A paciente descompensa de vez e morre.
Viomundo – Cesariana aumenta o risco da gestante com DHEG?
Alaerte Martins – Se não estiver sulfatada, sim.
Viomundo – O que significa sulfatar?
Alaerte Martins –  Equilibrar a pressão arterial da gestante, dando-lhe sulfato de magnésio. Suponhamos que a pressão foi a para 20 por 15. Cesárea feita com esse nível pressório, a gestante “empacota”.
Por isso, primeiro, tem de sulfatá-la, para reduzir a pressão arterial. Estabilizada, escolhe-se a via do parto: cesariana ou normal, se ela tiver condições de fazê-lo.
O tratamento da DHEG em si consiste em retirar a placenta que envolve a criança. É essa membrana que, em algumas mulheres, eleva muito a pressão arterial, causando pré-eclampsia e eclampsia, que é quando já está em coma e pode morrer.  Porém, se a placenta for retirada sem a paciente estar sulfatada, ela vai morrer do mesmo jeito.
Viomundo – Quais são as causas de hemorragia?
Alaerte Martins – Por exemplo, placenta fora do lugar. Essa mulher pode ter hemorragia durante a gravidez e já passar a ser gestante de risco, o que exigirá mais consultas.
A hemorragia pode ser pós-parto simplesmente porque o útero não se contraiu. Por isso, quando ocorre essa hemorragia, a mãe tem de ser levada logo para o hospital. É fundamental que tenha profissional habilitado a fazer massagem uterina, para o útero contrair. E se não resolver, tem de se recorrer até à histerectomia (cirurgia para retirar o útero), para garantir a vida dessa mulher. Às vezes a simples administração de sangue numa mulher que está com hemorragia pode provocar um choque. Aí, ela morre não pela falta, mas pelo sangue mal administrado.
Viomundo – O aborto seria a quarta causa principal?
Alaerte Martins – Sim, em alguns lugares, a terceira. Às vezes até a primeira causa, como aconteceu em Salvador há 3 ou 4 anos. Detalhe: ¼ dos abortos são espontâneos. Entre as mulheres negras, metade dos óbitos devido a aborto é por aborto espontâneo.
A propósito, quando uma mulher chega a um hospital em processo de abortamento, ela é vista e tratada pela equipe de saúde como criminosa. Então, tanto o aborto quanto o tratamento são, em geral, cruéis e desumanos.
Viomundo – Por que acham que o aborto foi provocado?
Alaerte Martins – Com certeza. A discriminação é tão grande que só o fato de ela chegar com sangramento, eles já ficam em cima pressionando.
Por um acaso eu sou doutora, mas a minha irmã é balconista de loja, mal fez o primeiro grau. No ano passado, ela teve de fazer uma cirurgia de emergência por conta de um mioma. Ela passou o dia inteiro para ser atendida, todo mundo chegava de cara feia perguntando o que ela havia feito.
Eu já conhecia isso do relato de outras mulheres. Mas quando a minha irmã de sangue me contou o quanto foi maltratada, pude sentir que a discriminação é muito maior. As mulheres com suspeita de aborto são as últimas a serem atendidas, são tratadas como criminosas, inclusive aquelas que sequer o provocaram. Esse atendimento certamente contribui para que algumas morram.
Viomundo – Por que a mortalidade materna é maior entre as mulheres negras?
Alaerte Martins – Sem dúvida alguma devido à condição genética. Existem quatro doenças que são mais comuns na população afro-brasileira: hipertensão arterial, diabetes, anemia falciforme (ou doença falciforme) e deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (anemia mais rara e mais fácil de tratar). Pois essas doenças que são mais prevalentes na população negra são causas indiretas de óbito materno. Assim como as mulheres descendentes de italianos têm mais talassemia (outro tipo de anemia), que também é causa indireta de morte materna.
Viomundo – O racismo pesa na morte materna?
Alaerte Martins – Eu fiz uma pesquisa sobre morte materna no Brasil. Em cima dela, te digo: se um dia eu for parir, vou parir em Salvador. Aqui, no Paraná, a gestante negra tem 7,3 vezes mais risco de ir a óbito. Em Salvador, 3,7.
Explica-se. Aqui, no Paraná a nossa população negra é só 24%. Você chega num hospital, numa escola, a maioria das pessoas é branca. A nossa mente é seletiva. Vai atender o pacote, que é a maioria. E vai deixar para depois a minoria. Em Salvador, onde a maioria é negra, acontece o contrário. Primeiro, é atendida a maioria que é negra.
Isso não significa que o risco para as brancas seja maior em Salvador. O risco para as negras é que é menor.
O racismo e o preconceito estão tão incrustados em nós que as pessoas aprenderam a tratar as outras no pacote. E isso se reflete na mortalidade materna, na assistência à saúde, enfim. Primeiro, são atendidos os que são iguais, depois os diferentes.
Imagine na hora do aborto.  As mulheres negras já são discriminadas. Em situação de abortamento, elas são mais discriminadas do que as brancas. Serão as últimas das últimas a serem atendidas, correndo maior risco de morte.
Viomundo – Influencia mais racismo ou a pobreza?
Alaerte Martins – Os dois caminham quase sempre juntos. Você pode ter condição genética para hipertensão arterial e não chegar a desenvolvê-la ou mantê-la bem controlada, se tiver diagnóstico e tratamento precoces aliados a acesso a serviços de saúde, alimentação adequada, etc. Por outro lado, se tiver baixa renda (menor acesso aos serviços, menos alimentação adequada), ela se somará à baixa escolaridade (menor nível de compreensão sobre si e sua saúde), contribuindo para o rápido desenvolvimento da doença, até a morte.
Viomundo – Como deve ser o pré-natal?
Alaerte Martins – É preciso que todas as mulheres grávidas brasileiras tenham acesso ao pré-natal.  Isso se chama universalidade. É o primeiro pilar do SUS (Sistema Único de Saúde). O segundo é a integralidade, para não acontecer o que ocorreu em Curitiba há 3 anos. Tivemos cinco óbitos por infecção urinária, um atrás do outro.
Levamos um susto. Será que a mãe não estava fazendo exame de urina? Estava. Será que não havia antibiótico para tratar a infecção? Havia.
Nós fomos estudar. As cinco mulheres que morreram eram pobres e ninguém as encaminhou para fazer uma higiene dentária. E elas tinham infecções na gengiva. De que adianta dar antibiótico para o útero e esquecer que pode haver infecção na boca? Isso é integralidade da atenção à saúde. Quem trouxe esse conceito para o SUS foi o movimento de mulheres.
As mulheres são únicas e um todo, não apenas útero. E os governantes insistem em não entender isso.  Daí uma das razões pelas quais sou contra a Rede Cegonha. Todo mundo esperava que a presidenta Dilma fosse melhorar –  e muito – a saúde da mulher como um todo. Em vez disso, veio um pacote com a Rede Cegonha, inclusive com esse nome horrível.
Para salvar todas as negras e as descendentes de italianos é indispensável que façam no pré-natal a eletroforese da hemoglobina, que é o exame para saber se têm anemia falciforme ou talassemia.
Não adianta fazer um pré-natal completo para elas só pensando na universalidade.  Tem de se pensar na especificidade que essas duas mulheres têm. Ou seja, a possibilidade de terem essas doenças genéticas.
Equidade é tratar os desiguais de modo diferente. É saber que todas as mulheres não são iguais para serem colocadas num pacote. Tem de ter o pré-natal para todas. Mas tem de ter integralidade, mas principalmente especificidade, de acordo inclusive com o tipo de atividade profissional de cada mulher.
Viomundo – O que acha dos R$ 50 previstos na Medida Provisória 557 como auxílio-transporte às gestantes?
Alaerte Martins – Quando soube que a MP 557 previa R$ 50, fiquei saltitante. Tinha certeza de que era o retorno do pagamento do SisPreNatal (Sistema de Acompanhamento do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento) às Secretarias Municipais de Saúde, que são as responsáveis pela atenção à saúde das gestantes, inclusive pelo transporte quando necessário. Seria uma forma de retomar o financiamento e monitoramento do pré-natal como um todo, principalmente das gestantes de alto risco.
Caí do cavalinho, quando vi o absurdo que é dar esses R$ 50 para a mulher, responsabilizando-a por algo que já é direito dela.  Desde a Constituição Federal de 1988 e a consequente implantação do SUS, a responsabilidade de transportar a gestante no pré-natal é do gestor municipal.
Viomundo – Por favor, explique melhor essa história do SisPreNatal e dos R$ 50 que eram pagos às secretarias municipais de saúde.
Alaerte Martins – O SisPreNatal é um sistema informatizado de monitoramento da qualidade do pré-natal. Possibilita acompanhar cada gestante cadastrada até a consulta do puerpério, preservando o sigilo dos dados.
Até 2009, o governo pagava às secretarias municipais de Saúde gestante R$50 por gestante, sendo R$ 10 para cadastrá-la no primeiro trimestre de gravidez. E os R$ 40 restantes, para realizar seis consultas de pré-natal (no mínimo), uma consulta até 42 dias de pós-parto, vacina antitetânica e solicitar todos os exames básicos preconizados: tipagem sanguínea, hemoglobina e duas baterias de VDRL (teste para sífilis), urina e glicemia.
Em 2009, houve mudança na forma desse pagamento, que foi transferido para o Piso da Atenção Básica (PAB). O valor do PAB foi aumentado na época. Mas perdeu-se ao  não possibilitar a visualização dos R$ 50 do SisPreNatal. Muitas secretarias municipais de saúde deixaram então de alimentar o SisPreNatal. E principalmente desvalorizou o SisPreNatal.
Eu pensei que estávamos tendo esse recurso de volta para tratar melhor todas as gestantes e identificar as de alto de risco. Mas não foi o que aconteceu. Infelizmente, o auxílio-transporte é uma grande decepção. Perdemos em 2009. E na portaria 1459, de junho de 2011, que institui a Rede Cegonha, só temos garantido o retorno do pagamento de R$ 10 do cadastro, e ainda fundo a fundo, o que dificulta o monitoramento e consequentemente o interesse do gestor. Cadastrar e não acompanhar — monitorar, fazer busca ativa ou o nome que quiser neste país continental –, não reduzirá a morte materna, pois a gestante é que terá de se cuidar.
Viomundo – Por que considera os R$ 50 reais um absurdo?
Alaerte Martins – Se a mulher mora em município qualquer Região Metropolitana de  São Paulo, Curitiba ou Belo Horizonte, por exemplo, ela é atendida na Unidade Básica de Saúde (UBS), perto de onde mora. E quando precisa de transporte para chegar até um centro de referência é a UBS que vai trazê-la.
Já em Doutor Ulisses a situação é bem diferente. Lá não tem transporte coletivo. Portanto, os R$ 50 reais não vão ajudar a pagar o transporte para consultas normais. Lá, o parto é feito por parteira em domicílio. Se a mulher precisa ir a um centro de referência, a cidade mais próxima é Cerro Azul, onde vai ser atendida por uma parteira hospitalar, que é uma auxiliar de enfermagem. Óbvio que lá não tem obstetra 24 horas por dia. Depois, ela tem de andar mais 100 quilômetros para chegar em Campina Grande do Sul, que é onde tem maternidade.  E não se consegue táxi com menos R$ 200 para ir de Doutor Ulisses a Campina Grande do Sul.
O que a mulher de Doutor Ulisses vai fazer com esses 50 reais? Nada! Se é difícil para a mulher de Doutor Ulisses arrumar um táxi, como vai ser para arrumar uma canoa aquela que mora lá no meio da Amazônia?
Ou seja, para algumas mulheres esse dinheiro não serve, para outras é totalmente insuficiente. E o governo ainda transfere para essa mulher a responsabilidade pelo transporte, que é do município.
Para que servem então os R$ 50? Não consigo pensar em outra finalidade, que não fins eleitoreiros. Não é possível que um técnico que entenda minimamente de saúde pública tenha falado para presidenta Dilma dar esse dinheiro a essa mulher, pois não há o que fazer com ele. É um retrocesso.
Viomundo – Os R$ 50 empoderariam essa mulher?
Alaerte Martins – Em hipótese alguma. Isso é para comprar votos das mulheres mais pobres que acabarão pegando esse dinheiro. Acho isso indigno, até humilhante. A mulher não precisa dos R$ 50, ela precisa que o serviço público realmente funcione. E o serviço é que tem de ir atrás dela. Até porque tudo o que foi proposto até hoje pelo próprio Ministério da Saúde, é exatamente o contrário do que faz a MP 557.
Viomundo – Esses R$ 50 vão ajudar a reduzir a mortalidade materna no Brasil?
Alaerte Martins – Dificilmente. Pelo contrário. É inadmissível uma gestante minha lá de Doutor Ulisses ter de ficar responsável para chegar em Campina Grande do Sul ou Curitiba. É preciso alguém lembrar ao ministro Padilha e à presidenta Dilma que as que morrem são as pobres, as negras, as que não têm acesso. E com R$ 50 nenhuma grávida de Doutor Ulisses vai conseguir táxi para chegar a uma dessas cidades de referência, que têm a responsabilidade de cuidar dessa mulher e quando ela precisar, transportá-la; ignorar isso é querer que muitas mais morram de morte materna.
Depois da conquista desse direito humano à saúde e dentro dele, o pré-natal, a gente conseguiu a duras penas que as secretarias municipais se responsabilizassem pelo transporte, agora, com a MP 557, estamos retrocedendo.
Viomundo – Com os R$ 50 a MP 557 joga nas costas da gestante a responsabilidade pelo transporte até a maternidade. Não é arriscado?
Alaerte Martins – Esse é o meu temor. Meu medo inclusive é que possa acontecer alguma morte e, aí, sim, além do caso Alyne, tenhamos mais processos internacionais.  Alyne não morreu por causa dos R$ 50. Não foi por falta de chegar. Pelo contrário. Ela peregrinou por vários lugares. O atendimento é que foi ruim. Se não melhorarmos, portanto, a qualidade do atendimento no pré-natal e principalmente a organização dos serviços, a mortalidade materna continuará sendo uma tragédia brasileira.








Matéria tirada do Viomundo - O que você não vê na mídia - http://www.viomundo.com.br/
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